Entrevistas

Entrevistas: Miguel Barata de Almeida, Presidente do Ericeira Surf Clube

Nos últimos tempos, o Ericeira Surf Clube tem sido badalado por ótimas razões, pela aprovação do projeto para celebrar o 10º aniversário da Reserva Mundial de Surf e foi também reconhecido nacionalmente e premiado pelo seu projeto de surf adaptado pela “Capacitar 2020” promovido pelo Banco BPI e pela Fundação “La Caixa”. Já tínhamos selecionado o presidente do ESC para esta entrevista, mas pelos vistos acertámos em cheio na altura certa pelo protagonismo que é da mais elementar justiça destacar. Os nossos parabéns.

Há quanto tempo está na presidência do ESC?

Embora seja Sócio Fundador do Ericeira Surf Clube em 1992/93, membro da primeira Direção entre 1993 e 1997 e Presidente da Assembleia Geral entre 2008 e 2012, sou Presidente da Direção somente desde 2012. São já muitos anos de dedicação ao nosso Clube.

Ser presidente do ESC ocupa boa parte do dia e fins-de-semana… Como vai administrando com a família e os seus filhos esta ocupação?

Ocupa-me várias horas do dia e fins-de-semana. Todos os dias tenho assuntos para tratar. Faço-o sempre motivado, com enorme satisfação e sem qualquer obrigação. Por vezes é difícil gerir em termos familiares sobretudo aos fins-de-semana, mas entendem. É uma responsabilidade assumida com a concordância familiar. Este ano, embora com menos provas e eventos, a nossa Escola de Surf, após o período de confinamento esteve com bastantes alunos, o que me fez passar tardes inteiras ou manhãs a seguir de perto as atividades durante mais tempo que o previsto porque, ou estávamos a receber novos alunos, ou porque assumimos desde o inicio promover dois horários diários com o máximo de dez alunos.

Acredita que este tipo de ocupação, presidente e diretores de clubes, a curto prazo terá de ser profissional como a maioria dos clubes estrangeiros?

Como facilmente se verifica, o fenómeno da Formação no Surfing está cada vez mais entregue entidades privadas. Não faz mais sentido que os Clubes continuem a funcionar com base no amadorismo e na amizade.
Para sermos competitivos teremos de ir profissionalizando os órgãos de gestão e de formação procurando elevar os padrões de qualidade e critério nas nossas ações. Temos procurado encontrar algumas soluções e através de alguns mecanismos e atividades vamos conseguindo retribuir financeiramente aos técnicos que se encontram a desenvolver as atividades na nossa Escola de Formação.
Quanto aos órgãos de gestão, teremos também de desenvolver ainda mais a nossa área de negócio de forma a que sejam garantidos recursos financeiros para serem distribuídos por quem ativamente desenvolve atividades no Clube. Há já projetos em andamento que passará a haver remunerações.

E os atletas “formados” no ESC agora em elite com prémios em dinheiro de montante elevado, nada contribuem para o Clube?

Os prémios que eles recebem não são de valor monetário assim tão elevados, no entanto, como é natural revertem para eles. Na minha opinião terá de ser o Clube a criar melhores condições ao nível do treino e competições, para que os seus atletas possam estar ao melhor nível sempre que estejam em competição.
Estamos também a procurar outras soluções para os atletas que estão com dificuldades em conciliar os estudos com os treinos e competições.
Temos de nos interessar cada vez mais na formação enquanto atletas, pessoas e procurar garantir que a qualquer momento possam contar com o seu Clube. A sua contribuição para o Clube será não só reconhecerem a importância do Clube na sua vida desportiva, como também em outras áreas que desejem seguir.

Contamos dentro de algum tempo apresentar um novo projeto que está a ser trabalhado. Não deveria haver uma ligação de carácter institucional, que disponibilizasse, como no futebol, algo que inclua uma ligação ao clube, em termos monetários?

Isso seria o desejável, mas com cerca de 220 Atletas federados (somos o Clube com mais federados em Portugal), torna-se muito complicado.
Teríamos de ter um modelo de negócio muito bem desenvolvido que nos permitisse essa situação. Penso que nenhum Clube de Surf tenha condições financeiras para suportar salários a Atletas. Da nossa parte temos conseguido contribuir no pagamento de inscrições nos mais variados circuitos competitivos; promovemos um Circuito interno com excelentes prémios e que de certa forma proporciona sempre boas ondas e procura elevar os parâmetros de qualidade e de competitividade; promovemos exames médicos anuais; estabelecemos parcerias para treinos físicos; promovemos nas redes sociais fotografias e clips e noticias saídas nos media. Gostaríamos de contribuir mais e continuamos a trabalhar para isso.

Isso daria independência e solidez na estrutura do Clube, para dispor de viagens e acompanhamento dos atletas nas várias situações desportivas e politicamente corretas de equipamento e formalidades sociais nas solenidades e entrega de prémios, bem como a promoção dos atletas. Qual a sua opinião?

O Surfing é uma atividade bastante individualista. Temos apenas uma prova em Portugal que se faz em formato de equipa – a Taça de Portugal de Surfing – ou a nível internacional, as provas de seleções nacionais – International Surfing Association (ISA) e da Federação Europeia de Surf – em que os títulos mais importantes são coletivos. Todas as outras são individuais. É muito difícil neste momento os Clubes muito parcos em recursos humanos e financeiros chamarem para si toda a gestão das carreiras dos seus atletas.
Idealmente poderiam ser os clubes a converterem para si as verbas de patrocínios; assegurar os equipamentos para cada atleta; disponibilizar técnicos; assegurar viagens, estadias e alimentação entre outras situações.
Mas não é possível. Como referi é um desporto muito individualizado e seria muito difícil de gerir como um todo. Teríamos de dar tratamento muito diferenciado e não estamos preparados nem formatados para tal.

O ESC está de parabéns com mais um ano com atletas nas plataformas mais importante das provas de surf internacionais. A que se deve este facto e a quem cabe este destaque?

Este destaque cabe sobretudo primeiramente aos atletas, devido ao seu valor. Para lá chegarem há um muito exigente trabalho com os seus técnicos. Existe também na maioria dos casos avultados investimentos financeiros suportados na maioria dos casos pelas famílias e em alguns pelos seus sponsors. São grandes os sacrifícios que fazem diariamente. São atletas como os das outras modalidades, em que a sua maioria prescinde de ter uma adolescência e vida adulta igual ao de muitos amigos e familiares, na procura de conquistarem uma carreira que lhes proporcione a sua realização pessoal e desportiva.

O ESC sempre manteve um presidente. Está em renovação e em evolução o staff da direcção, com um plano traçado e a dar frutos é razão para parabenizar? Destaca alguém da sua equipa?

Em termos de estrutura dos nossos Órgãos Sociais mantemos o “núcleo duro” desde que assumi em 2012 a presidência do Clube. O atual mandato de quatro anos termina em 2021 e como é normal irão haver necessários ajustes. As razões são diversas. O grau de exigência passou a ser mais elevado, obrigando um maior acompanhamento das diversas atividades que temos vindo a estar envolvidos, assim como teremos de ir encontrando pessoas com perfil e que se disponibilizem para nos acompanharem nesta caminhada.
Todo o trabalho aqui realizado é em equipa. O destaque é sempre a equipa e não a nível individual. Assim será sempre comigo no Clube.

Segundo notícias “O Ericeira Surf Clube (ESC) viu aprovada pela Comissão Europeia uma candidatura europeia ao programa Erasmus+ Sport 2020 para celebrar o décimo aniversário da Reserva Mundial de Surf da Ericeira – RMSE”. Que nos diz desta aprovação?

É um dos momentos mais grandiosos do nosso Clube. Ver um Projeto desta dimensão ser aprovado pela Comissão Europeia (CE) é de enorme responsabilidade e exigência.
Imaginem como nos sentimos ao tomarmos conhecimento que em 7 anos desta linha de financiamento direta da CE, apenas 3 eventos foram aprovados para Portugal. O primeiro ligado ao IPDJ e este ano foram 2. Um da Câmara Municipal de Lisboa, que em 2021 será Capital Europeia do Desporto e o do Ericeira Surf Clube… É um orgulho
enorme termos esta oportunidade única de podermos partilhar este projeto, não só para a nossa comunidade
local, como também para a Europa. É o momento exato para que definitivamente a nossa World Surfing Reserve seja trabalhada como um exemplo de sustentabilidade desportiva, ambiental e turística.
É dever de todos que diariamente desfrutam deste privilégio que a natureza nos proporcionou, que a preservemos e cuidemos e que consigamos que gerações futuras e todos aqueles que nos visitam sintam o mesmo.

Pode adiantar o que vai ser feito? Projetos?

A execução deste projeto, envolve 9 entidades oriundas de diversos países europeus, para além de muitas entidades nacionais e internacionais que desde o primeiro momento se disponibilizaram em apoiarem-nos com a candidatura. Resumidamente, iniciaremos com uma Conferência de Apresentação, seguindo-se Ciclos de Conferências Temáticas e “Digital Surf Talks”; ações de Formação; Evento na semana da celebração do 10º aniversário da WSR em que teremos a presença de 12 comitivas Internacionais e Nacionais, diversos Workshops e muito surfing; no final do ano teremos uma Conferência de Encerramento com a apresentação de um Estudo Cientifico sobre o Impacto nos últimos 10 anos da Reserva Mundial de Surf na Ericeira. Contamos em breve poder detalhar alguns dos temas aqui abordados.
Para finalizar, gostaria de agradecer ao Jornal “O Ericeira” esta oportunidade de aqui poder expressar um pouco daquilo que o nosso Clube vem desenvolvendo e também por todo o seu acompanhamento, divulgação e partilha ao longo dos anos a todas as nossas atividades.
Muito obrigado!!!