Entrevistas

Entrevistas: Designers Falcão Lucas

Os “Designers”, nome novo, já com uns anitos, para quem desenha e é criativo, e que num abraço ao computador, sobrepôs e trocou a necessidade de saber desenhar, pela perícia da utilização do computador. Nada contra. E não é o caso destes nossos entrevistados, que além da técnica, desenham e criam formas indiscutivelmente belas. São um caso raro, e mais do que dignos deste nosso destaque por aquilo que fazem e pelo traço de união à Ericeira que se deixa perceber pela conversa que poderão ler. Desta vez e têm muito mais para dar…falamos da realidade aumentada e para tal terão de ter uma aplicação no telemóvel (Artivive – ver Qrcode no fim deste artigo) para apreciarem o movimento e o resto da ilustração oculta aqui no papel. Este casal é uma prova daquilo que estamos sempre a dizer – que podemos elevar a Ericeira a uma plataforma de grande nível – para se produzirem aqui -conteúdos e peças para a Televisão de todo o mundo e não exclusivamente para Lisboa. Estes artistas já há muito trabalham para o estrangeiro e executam até os separadores da programação de canais como a Fox. Parabéns pelo trabalho feito e pela luta que tem sido no desbravar de conquistar, pela arte, todo o mundo… daqui da nossa Vila.

Sendo um casal, marido e esposa, qual a diferença, entre ambos, do trabalho, que tanto quanto se vê no resultado final, se completa? E como começaram ou se conheceram?

Conhecemos-mos no antigo café Fonte do Cabo no aniversário de um amigo em comum a beber shots de tequila em agosto de 2001 e, depois de muito engonhanço, começámos a namorar em novembro no Ouriço. Passados poucos meses passámos a morar juntos em Lisboa e a partir dai nunca mais estivemos longe um do outro por mais de 1 dia. Mas desde o princípio que percebemos que nos complementávamos a nível criativo: um sendo completamente caótico e uma sendo completamente metódica e que ao juntar os dois davam obras interessantes.


Para quem não esteja familiarizado com as vossas tarefas, expliquem lá como funciona o princípio e o fim das Vossas obras.

As nossas obras começam sempre no digital. É onde nos sentimos mais à vontade e é onde as nossas obras podem ser vistas como nós queremos, muito devido a elas terem sempre uma grande componente animada e áudio.
Só há poucos anos é que decidimos traze-las para o mundo “real” através de obras com realidade aumentada onde a própria obra é o gatilho que faz disparar a animação e a música através de uma aplicação para o telemóvel.

Como iniciaram esta profissão?

Começamos na área da publicidade entre 1999 e 2002 na agência lisboeta Grafe Publicidade e com o passar dos anos fomos ficando cada vez mais cansados do mundo da publicidade. Em 2012 com uma filha de 2 anos que só a víamos acordada alguns minutos por dia devido ao nosso trabalho e com outro filho a caminho decidimos criar este projeto. Primeiro a Tânia através de ilustrações para o Diário de Notícias e outros trabalhos de design e alguns anos mais tarde os dois com animações para a EDP e para a Associação Mutualista Montepio. Depois fomos tendo cada vez mais reconhecimento lá fora e em 2018 começamos a criar obras de arte físicas.


A escolaridade propiciou esta vossa actividade?

Pode-se dizer que sim. A Tânia tirou o curso de design de comunicação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e eu andei pelo IADE. Mas tendo em conta que já trabalhávamos antes de ir para a faculdade, vimos o mundo universitário de maneira diferente.
Passámos a resolver problemas a nível profissional de uma maneira académica, ou seja, se não sabíamos alguma coisa, procurávamos como o fazer através de investigação e da constante aprendizagem de novas ferramentas.
Foi assim que nos tornámos-mos num projeto multidisciplinar que alia a arte visual com a arte animada, áudio, programação, realidade aumentada e tudo o mais que for aparecendo.

E como concluíram que estando a viver na Ericeira podem trabalhar aqui?

Primeiro a Ericeira para nós sempre foi o nosso porto seguro. Eu, apesar de ser de Lisboa sempre tive uma ligação enorme com esta terra desde muito pequeno, assim como a minha família. O meu bisavô, de alcunha Bucelinhas, tinha uma loja de eletrodomésticos no Largo dos Condes e os meus avôs e pais, sempre vieram para cá no verão. A Tânia, apesar de ser de Mafra, sempre adorou a Ericeira e sempre que podia fugia para cá. E, assim, desde que nos conhecemos que sempre dissemos que no momento em que conseguíssemos ter o nosso próprio negócio ou conseguíssemos trabalhar a partir de casa nos mudaríamos para cá. Portanto em 2015 fizemos as trouxas, dissemos adeus a Lisboa e nunca mais olhámos para trás. E lá está, no nosso caso é fácil trabalhar aqui porque, apesar dos nossos clientes estarem em Lisboa ou no resto do mundo, o nosso trabalho é digital e podemos trabalhar em qualquer sitio onde haja uma ligação à Internet.  Só tínhamos de ir a Lisboa para ter reuniões com clientes e desde que aconteceu esta pandemia, todas as reuniões passaram a ser digitais, o que por um lado, nós agradecemos; não porque não queremos ver os nossos clientes, mas sim, porque assim não termos de sair daqui e ir parar a Lisboa.


Não são só facilidades, contem-nos algumas das vossas dificuldades e como conseguem superá-las?

Para além das dificuldades inerentes a ter um negócio próprio, a maior dificuldade passa muitas vezes por conseguir separar a nossa vida pessoal da profissional. Numa relação dita “normal”, cada um trabalha no seu emprego e depois chega a casa e pode desanuviar ou então chegar ao trabalho e poder descontrair dos problemas de casa. No nosso caso, nós vivemos juntos há quase 20 anos e trabalhamos juntos há mais de 10 anos e muitas vezes não há espaço para dividir as águas. Tivemos primeiro que aprender a lidar e a comunicar um com o outro de maneira a que nunca haja mal-entendidos e que passados todos estes anos ainda consigamos falar um com o outro.


Que materiais, equipamentos e programas mais utilizam?

Os equipamentos que mais usamos são iPads para ilustração e, também, para animação à “mão”  e computadores para ilustração e animação 2D e 3D, pós-produção e edição de vídeo e som, design de áudio, etc. No que diz respeito a programas, normalmente usamos toda a suíte da Adobe, alguns softwares 3D e usamos normalmente a aplicação Artivive para criar o nosso conteúdo de realidade aumentada.
Os materiais que usamos nas nossas obras físicas são normalmente impressões de alta qualidade e durabilidade em papel de algodão sem ácido, k-line, folha de ouro de 22k e contraplacado marítimo.



Qual foi a melhor recompensa e alegria… e também a maior tristeza na vossa carreira?

A nível artístico a maior alegria foi sem dúvida trabalhar com os Maroon 5, aquando do lançamento do álbum “Red Pill Blues”. Fomos contactados pela agência deles e pediram-nos para fazermos 2 ilustrações animadas para que eles pudessem escolher uma para ilustrar o single de lançamento nas redes sociais. No final, em vez de escolherem apenas uma, escolheram as duas e ainda nos pediram mais outra para ilustrar uma outra música do álbum.
A nível de recompensa pessoal foi termos conseguido em tempo recorde fazer toda a identidade e comunicação visual da Amadora BD de 2019 e termos a presidente da Câmara da Amadora a agradecer-nos pessoalmente e a dar-nos os parabéns.
Em relação à tristeza, não temos nada que chegue perto, mas tivemos um pouco de pena e ficámos um pouco frustrados quando nos foi pedido por duas vezes diferentes para criar vídeos para a Ariana Grande e das duas vezes resolveram não levar esses projetos avante.



E qual o vosso sonho ou meta, ainda a atingir?

O nosso sonho sempre foi e continua a ser o poder trabalhar naquilo que gostamos na terra que ambos adoramos. E, felizmente que conseguimos atingir esse sonho há alguns anos atrás. A partir dai é, como se costuma dizer, lucro.

Para quem se inicia nestas lides de arte qual o vosso conselho?

Nós temos sempre alguns conselhos para quem se inicia neste tipo de trabalho. O primeiro é, nunca ficarem parados à espera de uma “inspiração” que poderá não existir ou de um cliente que poderá nunca aparecer. Comecem a fazer coisas novas, copiem coisas antigas, olhem para o que os outros fazem e evoluam a partir dai. Se não se mexerem nunca ninguém vai saber do que são capazes. E isto leva-nos ao segundo conselho: a internet pode ser a vossa melhor amiga. Aprendam a usa-la a vosso favor e lembrem-se que assim poderão passar de alguns clientes que estejam próximos para milhares ou milhões que podem estar do outro lado do mundo.

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