Arte & Cultura Geral Música

A história do carrilhão encontra morada no Museu Nacional da Música

O Museu Nacional da Música tem à sua guarda a documentação e os objetos pertencentes aos carrilhanores Francisco Alves Gato (1913–1972) e Francisco José Alves Gato (1945–2024), pai e filho, um conjunto de extraordinário valor patrimonial, histórico e musicológico.

A doação reúne materiais que testemunham a atividade de duas figuras centrais da prática do carrilhão em Portugal e de uma família profundamente enraizada na comunidade de Mafra — território onde o Museu se encontra hoje instalado e cuja identidade cultural está intimamente ligada à música e ao seu conjunto sineiro único.

Entre a documentação incorporada encontram-se as mais antigas partituras conhecidas escritas especificamente para carrilhão em Portugal, constituindo fontes primárias essenciais para o estudo da evolução deste repertório no século XX. O conjunto inclui ainda objetos de grande raridade, como as dedeiras utilizadas pelos intérpretes, bem como registos, apontamentos e materiais de trabalho que permitem compreender técnicas de execução, processos de estudo e práticas interpretativas transmitidas entre gerações.

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    Francisco José Alves Gato (filho) e Francisco Alves Gato (pai) acompanham o fadista “Zé de Mafra” na Quinta Teixeira Pinto, Picanceira (Mafra). Autor desconhecido, s. d.

A doação reveste-se de particular importância para a salvaguarda do património musical português, permitindo preservar em condições higrotérmicas adequadas um acervo que, pela sua natureza e fragilidade, exige cuidados especializados. A incorporação reforça a representatividade das coleções do Museu Nacional da Música no domínio das práticas campanárias e contribui para a valorização pública de um património que é simultaneamente local, nacional e mundial — dado o seu vínculo direto aos carrilhões do Real Edifício de Mafra, classificados pela UNESCO como Património da Humanidade.

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Francisco Alves Gato, Beatriz Costa e Almirante Gago Coutinho, s.l. Autor desconhecido, s. d.

“Esta doação enriquece de forma excecional o conhecimento sobre a história do carrilhão em Portugal e sobre a comunidade de intérpretes que lhe deu vida. É um contributo decisivo para a preservação e estudo de um património único no mundo”, afirma a direção do Museu Nacional da Música.

O acervo agora proposto para doação passará a ser objeto de estudo e conservação, integrando o trabalho contínuo do Museu na salvaguarda e divulgação do património musical português. Encontra-se já simbolicamente representado na exposição de longa duração, na sala dedicada a Mafra, através de fotografias, partituras e das dedeiras de couro utilizadas para proteger os dedos do forte impacto que o toque do carrilhão exige sobre as mãos.

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Notas Biográficas

Francisco Alves Gato (1913 – 1972) no carrilhão de Mafra. Autor desconhecido, s. d.

Francisco Alves Gato (1913 – 1972) foi músico, compositor e carrilhanista, profundamente ligado à vida cultural de Mafra. Destacou-se como pianista e intérprete de vários instrumentos, participando em orquestras e iniciativas comunitárias. Como compositor, criou canções, fados, danças populares e obras para carrilhão, incluindo uma Avé Maria e uma Fantasia. Entre 1947 e 1957 foi carrilhanista do Palácio Nacional de Mafra. Paralelamente, exerceu funções como solicitador e participou ativamente em instituições locais, sendo recordado como personalidade culta e estimada, com forte impacto na vida cultural do concelho.

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Francisco José Alves Gato (1945–2024) no carrilhão de Mafra. Autor desconhecido, sem data.

Francisco José Alves Gato (1945 – 2024) foi carrilhanista e músico, figura essencial na preservação da tradição do carrilhão de Mafra. Iniciou estudos musicais na infância, sob orientação de José Henrique dos Santos e forte influência do pai, Francisco Alves Gato. Em 1965 frequentou o Curso de Carrilhão da Fundação Calouste Gulbenkian.

Desde 1972 realizou numerosos concertos no carrilhão do Palácio Nacional de Mafra, atividade retomada regularmente na década de 1980. Defensor do restauro dos carrilhões, participou no concerto inaugural de 2020. Distinguido com a Medalha de Mérito Municipal (Grau Ouro), conciliou a música com a carreira de piloto da TAP.