Tivemos ontem o mais longo discurso do Estado da Nação da história recente dos EUA, recheado de narrativas fantasiosas, tanto no plano da política externa como no da política interna.
Trump, fiel ao seu estilo, não age como um presidente institucional. Age no sentido inverso. Fragiliza as instituições, confronta-as e desgasta-as deliberadamente. Não revela respeito pelos eleitos pelo povo nem pelos equilíbrios que sustentam uma democracia madura. O seu comportamento aproxima-se mais do de um líder personalista do que do de um chefe de Estado comprometido com a separação de poderes.
Ultrapassou mesmo, em duração, os intermináveis discursos de Fidel Castro — uma proeza que diz mais sobre o estilo do que sobre a substância.
Acossado pelo caso Epstein, reage como alguém sob pressão. Quando um líder se sente cercado, tende a procurar factos políticos externos que alterem o foco mediático. Não será surpresa se procurar, no plano internacional, uma ação musculada que possa apresentar como vitória estratégica. O Irão surge, neste contexto, como alvo previsível de tensão.
Trump nunca assume responsabilidades. Transforma derrotas em vitórias através da retórica e da repetição. Esta semana foi exemplo disso, quando o Supremo Tribunal de Justiça dos EUA considerou ilegais as únicas medidas que apresentou como conquista estruturante — as tarifas.
O padrão é claro: personalização do poder, ataque às instituições quando estas o contrariam e construção de uma narrativa paralela para consumo interno.
Está em vias de se tornar um autocrata perigoso.
Nuno Pereira da Silva
Coronel na Reforma












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