Geral Opinião

A UE vergou-se às pretensões de Orbán

A União Europeia cedeu, na prática, às pretensões de Viktor Orbán, aproveitando um momento de crise energética e instabilidade geopolítica para introduzir concessões sem grande perceção pública.

O desbloqueio de cerca de 90 mil milhões de euros de apoio à Ucrânia ocorreu num contexto em que a Hungria, após pressão política e eleitoral, acabou por não bloquear o processo. No entanto, este avanço não foi isento de contrapartidas implícitas.

Na realidade, a UE acabou por aceitar exigências antigas da Hungria e também da Eslováquia, nomeadamente a continuidade do acesso a petróleo russo e a manutenção de infraestruturas energéticas críticas, como oleodutos essenciais ao seu abastecimento.

Esta cedência surge num momento em que a Europa enfrenta escassez energética, o que facilitou decisões pragmáticas, ainda que pouco discutidas no espaço público. A perceção geral foi de unidade europeia, mas essa unidade teve um custo político e estratégico significativo.

Simultaneamente, o abrandamento do impulso inicial do Pacto Ecológico Europeu limitou a capacidade de resposta estrutural da Europa. A aposta no hidrogénio verde e a reavaliação da energia nuclear não avançaram ao ritmo necessário, deixando o continente novamente exposto a choques externos.

Perante este cenário, torna-se urgente retomar uma estratégia energética coerente, baseada na diversificação de fontes. Países como o Brasil e Angola surgem como parceiros relevantes nesse esforço.

A Europa encontra-se, assim, mais uma vez numa posição de vulnerabilidade, resultado de decisões condicionadas pela urgência e pela necessidade de compromisso político interno.

Nuno Pereira da Silva

Coronel na Reforma