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A Polónia e a guerra híbrida

Os países que estão geograficamente mais perto da Rússia, alguns pertencendo ao ex-Pacto de Varsóvia, outros que no passado travaram guerras com ela e foram invadidos no todo ou em parte, estão a ser alvo de guerras híbridas diárias por parte do seu vizinho, que gostaria de os voltar a ter na sua área de influência.

Estes ataques híbridos são executados quer no mundo digital, quer em ações de espionagem, de operações especiais que fazem ou apoiam sabotagens, ataques terroristas, catalisam conflitos congelados, apoio a partidos extremistas, enfim, uma panóplia de ações integradas e planeadas para causar insegurança e, no limite, destruir o crédito das instituições e organizações dos países que designaram como alvo.

As ações nunca são diretas e os seus autores são ambíguos o suficiente para nunca se saber ao certo a sua origem, pois, mesmo quando são utilizados meios estatais, subsistem sempre dúvidas quanto à sua verdadeira origem e responsabilidade.

Esta dúvida implica que esses Estados estejam sempre em alerta e necessitem de despender enormes recursos para se defenderem.

As ações russas, no entanto, não se limitam aos Estados vizinhos, mas estendem-se a toda a Europa, muito em especial às suas potências, por forma a derrotá-las internamente, apoiando extremistas como a Le Pen e exaltando nacionalismos e conflitos étnicos.

A guerra híbrida implica que os Estados tenham que delas se defender com meios híbridos, não só com meios convencionais.

A invasão russa não é provável diretamente, mas provoca muito desgaste e muito dispêndio de recursos por parte dos Estados para salvaguardar as suas infraestruturas críticas.

Claro que, nas repúblicas do ex-Pacto de Varsóvia, a Rússia tem grande interesse. A Polónia e os acontecimentos ocorridos relativamente à nomeação e destituição de juízes do Tribunal Constitucional, fruto de relações de poder difíceis entre o Governo e o Presidente, foram logo classificados pela Rússia como um golpe de Estado. Esse conflito, claro, é explorado e incentivado pela Rússia.

A guerra híbrida procura transformar as vulnerabilidades das democracias em instrumentos de agressão contra elas, desgastando as suas instituições e a confiança dos cidadãos. A defesa europeia exige, por isso, uma capacidade de resposta integrada, que ultrapasse os meios militares convencionais.

Nuno Pereira da Silva
Coronel na Reforma