A Arábia Saudita parece estar finalmente a conseguir negociar com as duas partes do Iémen, os Houthis e as forças sunitas associadas ao governo iemenita reconhecido internacionalmente, tendo em vista conseguir a paz entre eles, numa proxy war em que os sunitas eram apoiados por Riade e os Houthis xiitas pelo Irão.
Esta guerra fratricida, que já teve empenho em apoio direto das Forças Armadas Sauditas, insere-se hoje numa nova arquitetura de segurança e defesa do Médio Oriente e, com o grande enfraquecimento do Irão, parece ter finalmente chegado a uma fase de desescalada.
A Arábia Saudita está a mediar a paz no sentido de se vir a constituir um Estado federado no Iémen, algo que, se acontecer, seria um grande progresso para a segurança das rotas marítimas que passam pelo Golfo de Áden em direção ao Mar Vermelho e ao Canal do Suez.
A maior parte do comércio proveniente da Ásia com destino à Europa poderá assim voltar a restabelecer-se, com vantagens económicas para o continente. No último ano, grande parte das rotas marítimas preferiu a rota do Cabo da Boa Esperança, evitando passar pelo Golfo de Áden por duas razões. Por um lado, os Houthis, num alegado apoio à causa palestiniana, atacavam navios que se aproximassem da região, levando a operações militares de resposta por parte das forças dos Estados Unidos e do Reino Unido. Por outro, mantinha-se a ameaça da pirataria somali, pelo que continuará a ser necessário resolver este problema para que o acesso ao Canal do Suez se possa fazer sem limitações.
Importa também sublinhar que, por este espaço estratégico, não passam apenas as rotas marítimas, mas também quase todos os cabos submarinos, incluindo os de telecomunicações e internet, que ligam a Europa à Ásia. Este espaço é, por isso, crucial para o Ocidente por duas razões estratégicas quase existenciais: a liberdade de circulação do comércio internacional e a segurança das infraestruturas críticas concentradas em torno do estreito de Bab el-Mandeb.
A estabilização duradoura deste estreito representa muito mais do que o fim de um conflito regional. É um fator central de segurança estratégica global, com impactos diretos na economia mundial, na resiliência digital e no equilíbrio geopolítico entre as grandes potências.
Aqui, nesta guerra civil em vias de chegar ao seu fim, as operações dos EUA foram decisivas sobre as forças Houthis, tendo destruído grande parte da sua capacidade de comando e controlo, bem como parte dos seus sistemas de mísseis. Esta ação dos EUA, França e Reino Unido nesta região foi decisiva para este previsível desfecho e insere-se na política global dos Estados Unidos de pacificar a região, para se poderem voltar para a região da Ásia-Pacífico, a fim de conter a China, o seu adversário principal.
Nuno Pereira da Silva
Coronel na Reforma












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