Geral Opinião

Será que os EUA vão desestabilizar o Irão e entrar numa guerra sem fim à vista?

Alexandre, o Grande, conquistou a Pérsia, assumiu o poder do Estado e daí lançou-se para as terras da Ásia Central. Ao tomar a Pérsia, conquistou uma posição central que lhe permitiu garantir a segurança do seu império e lançar-se para novas conquistas. Depois do Egipto, a Pérsia deu-lhe uma base mais equilibrada e estratégica, ligando os três continentes asiático, africano e europeu.
A Pérsia é um território vasto e populoso. Para ser tomada por via terrestre, teria de se sublevar as diversas etnias, sete no total e, com o apoio do Curdistão iraniano, partir para o ataque à capital.

Os Estados Unidos têm essa capacidade e dispõem de importantes meios blindados que deixaram no Qatar quando se retiraram do Iraque, por entenderem na altura que a guerra de blindados estava em declínio e que aquela região seria, no futuro, o cenário mais provável de nova utilização.

Veremos se efetivamente irão atuar. O primeiro passo, em qualquer caso, passará pelo apoio a uma guerra de insurgência, prometendo finalmente dar uma nação aos curdos.

Resta, contudo, um risco que importa não ignorar. Desestabilizar a Pérsia sem capacidade ou vontade de a reorganizar politicamente é criar um vazio no coração da Eurásia, um espaço onde a desordem tende sempre a gerar mais desordem. A história mostra que quem fragmenta este território sem o conseguir dominar acaba por libertar forças que deixam rapidamente de obedecer a qualquer controlo, alimentando conflitos longos, ressentimentos duradouros e radicalizações sucessivas. Prometer finalmente uma pátria aos curdos pode parecer eficaz no curto prazo, mas, se essa promessa voltar a não ser cumprida, apenas reforçará a sensação de traição e aprofundará uma instabilidade cujo preço humano e político acabará inevitavelmente por ser pago por todos, incluindo por quem julgou poder conduzir o processo à distância.

Se os Estados Unidos não quiserem controlar o Irão, então o cenário possível será o de atacar pontos sensíveis e estratégicos em território iraniano e iniciar uma guerra híbrida que, a médio prazo, pode revelar-se contraproducente para os próprios Estados Unidos.

Nuno Pereira da Silva
Coronel na Reforma