Arte & Cultura Geral

Ericeira debate identidade portuguesa e legado global nas comemorações camonianas

A historiadora Matilde Sousa Franco e a professora Isabel Almeida refletiram sobre o papel de Portugal na construção do mundo moderno e sobre a necessidade de preservar e compreender a memória histórica

No Auditório St. Marta, Ericeira, na tarde de sábado 14 de Março, apesar da chuva e do frio que marcaram o dia, dezenas de pessoas reuniram-se para refletir sobre o papel de Portugal na história global e sobre o significado contemporâneo da herança cultural portuguesa. A iniciativa foi promovida pelo Instituto de Cultura Europeia e Atlântica (ICEA) no âmbito das comemorações dos 500 anos de Luís de Camões.

A sessão juntou duas comunicadoras com percursos distintos: a historiadora e museóloga Matilde Sousa Franco, autora do recém-publicado livro “Portugal Global”, e a professora de Literatura da Universidade de Lisboa Isabel Almeida, especialista na obra camoniana.

O ponto de partida do debate foi uma pergunta provocadora: como foi possível que um reino com pouco mais de um milhão de habitantes tivesse transformado profundamente a visão do mundo? E, sobretudo, se os próprios portugueses têm hoje consciência desse impacto histórico.

Para Matilde Sousa Franco, a resposta passa por um problema de memória coletiva e de autoestima nacional. “Os descobrimentos portugueses foram uma revolução reconhecida por historiadores de todo o mundo”, afirmou. Contudo, considera que Portugal ainda não encontrou a melhor forma de contar essa história.

A museóloga apresentou o seu projeto conceptual de um “Museu Portugal Global”, uma instituição dedicada à história da expansão portuguesa e ao encontro entre culturas. Segundo explicou, o museu assentaria em sete pilares e procuraria abordar a história desde o século XV através de uma perspetiva intercultural e não eurocêntrica.

O projeto teria ainda uma vocação universalista e pedagógica, com financiamento misto — público e privado — e uma localização simbólica junto ao rio Tejo, possivelmente na zona do Terreiro do Paço. Entre as ideias apresentadas está a presença de uma réplica de caravela no cais e a criação de espaços dedicados a encontros entre comunidades da diáspora portuguesa.

A investigadora sublinhou também a importância de preservar a memória histórica portuguesa num contexto internacional em que outros países valorizam figuras ligadas à navegação e às explorações marítimas. “Disseram-nos um dia: deviam preservar a vossa memória”, recordou, citando um antigo embaixador japonês em Portugal.

No centro da proposta está ainda um conceito que a historiadora descreve como uma “mania pessoal”: a paz. Inspirada por experiências académicas internacionais, incluindo uma bolsa Fulbright e investigação sobre a história da paz, Sousa Franco defende que a narrativa da expansão portuguesa deve ser pensada à luz da convivência cultural e das trocas entre povos.

Na segunda parte da sessão, Isabel Almeida conduziu a audiência por um “périplo” pela obra de Camões, sobretudo por Os Lusíadas, explorando o contexto histórico e intelectual em que o poema foi escrito.

Segundo a académica, o tempo de Camões foi um período de intensa transformação do conhecimento do mundo. “Era um tempo de descobertas, de viagens e de aceleração da história”, explicou, referindo as mudanças profundas na cartografia e na percepção geográfica da época.

A professora evocou cartógrafos como Fernão Vaz Dourado e Abraham Ortelius, cujos mapas refletiam simultaneamente novas descobertas e antigas concepções do mundo. Esse processo de transformação intelectual está também presente na poesia camoniana.

Os Lusíadas, lembrou, dialogam diretamente com a tradição clássica, numa espécie de “braço de ferro” literário com a Eneida de Virgílio. Ao mesmo tempo, Camões introduz reflexões críticas (dir-se-iam melancólicas) sobre a natureza humana e sobre o poder do dinheiro e da ambição.

No final da intervenção, Isabel Almeida destacou uma ideia que considera particularmente simbólica: Portugal é provavelmente o único país que celebra o seu dia nacional não em memória de uma batalha ou de um herói guerreiro mas em honra de um poeta. Um gesto que, na sua perspetiva, revela a importância da cultura e da literatura na identidade portuguesa.

Entre história, literatura e reflexão crítica, o encontro terminou com uma pergunta que atravessou toda a sessão: será Portugal capaz de reconhecer plenamente o seu papel histórico e projetá-lo no futuro?

Para os intervenientes, recuperar essa consciência pode ser um passo essencial para compreender não apenas o passado, mas também o lugar de Portugal no mundo contemporâneo.