Trump atua com a iniciativa permanente, mantém o ímpeto, age de forma imprevisível e diz coisas sem nexo aparente, deixando todos na incerteza. Atua no momentum certo, trabalha informação, contrainformação e narrativas para criar percepções, enquanto mantém canais diplomáticos oficiais e oficiosos a funcionar incessantemente, recorrendo a informadores e intermediários. Se é louco ou se faz de louco, não sei, mas que deixa o mundo inteiro louco, deixa.
A Europa não está organizada para responder rapidamente. Vai ter de se repensar, mesmo sem mudar os Tratados, recorrendo a cooperações reforçadas ou a cooperações estruturadas permanentes, criando staffs integrados mais ágeis e respondendo como a potência que é.
A pouca flexibilidade europeia e a extrema regulação podem, contudo, constituir um contraponto importante, pois, em termos estratégicos, a Europa não reage de forma emotiva, mas sim ponderada, sendo capaz de fazer com que o ímpeto de Trump arrefeça. Trata-se de uma política estratégica que, por outros motivos, se assemelha à chinesa, que vai prosseguindo o seu caminho.
A minha experiência na União Europeia assim o demonstra, pois desde a Cimeira de Colónia muito se avançou em matéria de Segurança e Defesa, tanto a nível estrutural como operacional. A União Europeia dispõe, a nível nacional, do que necessita, incluindo quartéis-generais que, com argumentos, mitigam a inexistência de estruturas permanentes equivalentes ao nível da União.
As forças existentes nos inventários nacionais, que não são públicos, e as indústrias europeias estão ao nível das melhores e são concorrenciais com elas, como é o caso da Rheinmetall, da Airbus e mesmo da Tekever, a nível nacional. A alegada impreparação, em caso de conflito com uma potência como a Rússia, tenderá a ser desmentida, pois tudo se conjugará da melhor forma: partilhamos a mesma doutrina e estamos habituados a trabalhar em conjunto no âmbito da NATO. A descrença é mais jornalística do que real.
A título de exemplo, cito o caso da reação às tarifas, que não foi feita a quente, nem ao sabor da espuma dos dias ou da pressão mediática, mas revelou-se eficaz. Incidiu no eventual taxamento dos serviços digitais, replicando a medida e infligindo um dano semelhante, ou até superior, na economia americana. Ao caos e ao ímpeto responde-se com serenidade.
Nuno Pereira da Silva
Coronel na Reforma












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