A China está a apostar tudo na eletricidade para se libertar, de vez, das energias fósseis. Mas, a verdade, é que ainda depende delas. Cada vez menos, sim, mas ainda precisa. E como não tem grandes reservas dentro de portas, vai buscá-las à Rússia e a muitos outros cantos do mundo, incluindo, até há muito pouco tempo, à Venezuela, um país cuja dívida a própria China comprou para se garantir o acesso ao petróleo.
O problema é que, com o petróleo venezuelano a cair na esfera dos Estados Unidos, o jogo muda. A Venezuela, sozinha, concentra perto de um quinto das reservas mundiais de crude, e isso dá a Washington um peso brutal. Se juntarmos a isso o petróleo americano, a importância crescente da Guiana e a influência que os EUA exercem sobre países ligados aos Acordos de Abraão, começamos a perceber que está ali uma massa crítica de energia que conta de verdade, não no papel, mas no mundo real.
E não fica por aí. Se os Estados Unidos conseguirem ainda meter o Irão na equação, direta ou indiretamente, então passam a controlar uma fatia decisiva do petróleo que realmente circula, que se extrai, se transporta, se vende. Isso afasta a China de mercados essenciais, trava-lhe o crescimento e deixa-a dependente de decisões tomadas longe de Pequim. É assim que eu vejo esta estratégia.
Por isso digo: o petróleo é o motor de fundo da jogada americana para travar a China. Se o Irão cair nessa órbita, a One Belt, One Road fica ferida de morte, porque são cortados os corredores energéticos que ligam a Ásia Central ao Golfo e à Europa. Esta é a minha convicção, e não a escondo.
Depois há ainda a Rússia. Separá-la da China é outro objectivo central. E, para isso, é preciso desbloquear a guerra na Ucrânia e redesenhar alianças sérias em torno do petróleo e das terras raras. No fundo, reorganizar os fluxos de energia do planeta para apertar o cerco a Pequim.
É esta a tese que defendo. Não vejo aqui caos, nem improviso. Vejo sim uma estratégia de disrupção clara, que passa por negar ao adversário os meios para cumprir os seus planos. O controlo do petróleo, direto e indireto, é a arma escolhida para travar a ascensão da Rússia e, ao mesmo tempo, conter o avanço da China.
No fim de contas, é a energia que continua a mandar no mundo. E esta é a minha análise, com a certeza de que o petróleo permanece, ainda hoje, como elemento geopolítico essencial e forma estrutural do poder.
Nuno Pereira da Silva
Coronel na Reforma












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